Economia Solidária

Por Luíza Cuthi Mattia

Alternativa saudável, solidária e sustentável

Um outro modelo de desenvolvimento, que busca não só a simples geração de trabalho e renda, mas que também fomenta empreendimentos. Esta é a Economia Solidária, que propõe a distribuição igualitária dos recursos, a participação coletiva na gestão e o pleno desenvolvimento pessoal e social de seus integrantes. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a Economia Solidária (ES) aponta para uma nova lógica de desenvolvimento sustentável, com um crescimento econômico que atente à proteção dos ecossistemas, e que ainda implique em uma reversão da lógica capitalista, sem exploração do trabalho e dos recursos naturais.

No Rio Grande do Sul, a Secretaria da Economia Solidária e Apoio à Micro e Pequena Empresa (SESAMPE), criada em 2011, representa e fomenta cerca de 2500 empreendimentos de Economia Solidária nas áreas da agricultura familiar, artesanato, reciclagem e serviços. Estima-se que 250.000 pessoas estejam envolvidas em todos os setores em que a ES está presente no estado.

Nelsa Fabian Nespolo, diretora de Economia Solidária, fala que o Rio Grande do Sul é pioneiro no país em ter uma secretaria para tratar do tema. Quando surgiu, a SESAMPE propôs um diagnóstico, feito em parceria com algumas universidades, para identificar os setores de ES no estado. A partir disso, pensou-se em estratégias para fortalecer estes espaços. Uma das propostas foi a criação das cadeias solidárias: quando todas as etapas da cadeia produtiva – do insumo até sua transformação no produto final e sua colocação no mercado – são exercidas por empreendimentos de Economia Solidária. A cadeia solidária das frutas nativas, por exemplo – presente em cinco regiões do estado -, inclui o butiá, o araçá, o açaí Jussara, a guabiroba, a jabuticaba, entre outras frutas, e envolve desde o cultivo e o cuidado com as plantas, o despolpar da fruta até o produto final, que pode ser um suco, picolé, sorvete, geleia ou mousse.

Nelsa Fabian Nespolo: “As cadeias solidárias existem para retirar o ‘atravessador’, responsável pelo encarecimento do produto”. Crédito: Luíza Mattia
Nelsa Fabian Nespolo: “As cadeias solidárias existem para retirar o ‘atravessador’, responsável pelo encarecimento do produto”. Crédito: Luíza Mattia

A diretora salienta que as cadeias solidárias têm o benefício de, ao mesmo tempo, pagar um preço justo para o produtor e ter um custo menor que o do mercado tradicional para o consumidor – em comparação com a venda de alimentos orgânicos em lojas especializadas. Sem contar as benesses para a saúde do produtor, que não utiliza agrotóxicos, e do consumidor. “A Economia Solidária é um diferencial para que, aos poucos, a sociedade incorpore seus conceitos. Só a partir da conscientização é que o consumidor se torna responsável por qual mercado ele escolhe [o tradicional ou o solidário]”, enfatiza.

A Secretaria, ressalta Nelsa, também avançou em termos de leis para a Economia Solidária no estado, como a isenção de ICMS para as cooperativas, os processos de certificação, a instituição de um Conselho Estadual de Economia Solidária (Cesol), a constituição de casas de ES (espaços de comercialização, formação e qualificação da gestão e do produto), além de um fundo público de ES. “É importante que a Economia Solidária esteja amarrada com leis para que tenha continuidade”, completa a diretora.

Nelsa é também fundadora e presidente da Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (UNIVENS), situada em Porto Alegre e atualmente com 28 cooperados. A UNIVENS produz peças de vestuário como camisetas e uniformes, além de fazer parte da cadeia solidária do algodão orgânico, a Justa Trama, presente em quase todas as regiões do Brasil. O algodão orgânico é plantado no Ceará e em Mato Grosso do Sul, vai para Minas Gerais para a fiação e tecelagem, e chega a Santa Catarina e ao Rio Grande do Sul para a confecção das roupas. As sobras ainda são utilizadas para produção de brinquedos e jogos pedagógicos. “O valor final é o normal de mercado para uma roupa orgânica”, ressalta.

Um espaço para a comercialização da Economia Solidária

O Contraponto – Entreposto de Cultura, Saúde e Saber é um espaço de comercialização solidária, situado no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ao lado da Faculdade de Educação (FACED). O local oferece alimentos orgânicos e integrais, também vegetarianos e isentos de glúten e lactose, além de artesanato e confecção.

O espaço foi inaugurado em 2009 como uma experiência prática da Economia Solidária dentro da universidade, e surgiu a partir da demanda de comercializar os produtos dos empreendimentos acompanhados pelo Núcleo de Economia Alternativa da UFRGS (NEA), que mantém a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares. O Contraponto possui um Conselho Gestor composto por todos empreendimentos integrantes, e que é acompanhado pelo NEA. Desde setembro, o coletivo está formalizado após a criação de um CNPJ.

Infographic  Parceiros da CONTRAPONTO   Infogram

Mônica Raquel da Rosa, do empreendimento Misturando Arte, de artesanato e oficinas de prestação de serviços, é atendente no Contraponto. Além dela, há mais duas atendentes fixas escolhidas pelo Conselho Gestor. Há também alguns plantonistas que vêm uma vez por semana ou uma vez por mês para auxiliar no atendimento aos clientes e cuidar do seu produto.

A atendente conta que as pessoas vêm ao Contraponto principalmente atrás de alimentos orgânicos e vegetarianos. “A preocupação com a saúde tem aumentado muito, e o nosso espaço existe para ajudar na busca por uma melhor qualidade de vida”, diz ela. A atendente também ressalta que os produtos vendidos no coletivo têm um valor menor que o do mercado convencional.

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Terra compartilhada, produção coletiva

Outro empreendimento participante do Contraponto é o grupo Mulheres da Terra, que produz e comercializa alimentos orgânicos e coloniais de baixo custo, além de artesanato. O grupo é formado por 18 famílias que vivem em um assentamento em Viamão, junto a RS-140, chamado Filhos de Sepé.

O coletivo, que expõe todas as terças-feiras em frente ao Contraponto, há cerca de quatro anos, vende vegetais (alface, couve, rúcula, espinafre), feijão, pães (feitos sem ovos e leite), queijos, geleias, doce de leite, entre outros. Cada alimento vendido, ou usado na produção de outro alimento, vem de uma das 18 famílias do assentamento que fazem parte do grupo. A coordenadora, Isabel Cristina Ribeiro, conta que a comercialização é feita em conjunto: toda semana, uma mulher e dois homens vão às feiras para fazer a venda, e eles utilizam um sistema de listagem para saber o que foi vendido, a quantidade, e de que produtor pertence.

Além da feira no Campus Central da UFRGS, o grupo também expunha no Campus do Vale e na Escola de Educação Física (ESEF), mas as feiras foram desativadas por falta de transporte. Nas sextas-feiras, o coletivo expõe em frente ao Centro Administrativo Fernando Ferrari (Avenida Borges de Medeiros, 1501), e aos sábados, participa da feira orgânica do espaço Terra Íntegra, na Zona Sul da Capital (Avenida Guaíba, 10410).

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